
É fato que ao longo dos tempos vamos colecionando pessoas e acontecimentos reais ou imaginários, independente da veracidade dos fatos que se misturam com o fruto imaginativo de nossas cabeças o que vale é a intenção de sentir e ser sentido. E ao abrir meu álbum de figurinhas eu sempre me deparo com essa lembrança, foi no acaso de estar sozinho em terras distantes procurando qualquer tipo de comunicação para interagir com aquele mundo e se sentir alguém comum. Eis que veio até mim um homem que, assim como eu tinha malas espalhadas pelo corpo e um olhar de despedidas. Suas botas entregavam quantas estradas já havia percorido em busca de algo. Minha cara não foi de muita simpatia, imagino eu, mas o sorriso que ele abriu no rosto ao pedir permissão para se sentar na minha mesa foi inegável. Afinal não iria perder nada em ser cordial com alheios. Uma figura magra, alta, cabelo com cortes irregulares, um bigode de cigano, os dedos amarelos e os dentes acinzentados me chamaram mais ainda a atenção. Apesar de aparentar algo feio e destrutivo, continuo a afirmar que foi um dos sorrisos mais bonitos que eu vi e senti nessa minha mísera condição de ser humano, que apartir dalí eu percebi que eu não era tão mísero assim.
Sua terra era de algum lugar do leste e o seu nome curto de imponente pronuncia nunca fora tão bem pronunciado por um estrangeiro, disse ele. Istvan, assim se chamava o caboclo. De culturas e terras distantes nos unimos em sentimentos tão íntimos e próximos que as diferenças antropológicas se apagaram, eramos dois maltrapilhos que tinhamos como chão as infinitas estradas e o dilema das eternas despedidas que foram transformadas em duras casca na pele sensíveis ao menor sinal de nostalgia, melancólicos. Suas histórias, assim como as minhas, foram compartilhadas como irmãos de um sentimento comum.
Independente dos lugares e das pessoas em que estivemos o grande dilema nos foi sempre ter que se despedir daquela única pessoa amada. Entre encontros e desencontros o infortúnio destino da separação será nossa sina. Cientes, apesar de tudo, na santa inocência do amor, um dia iriamos criar raizes com nossos amores. A questão é nunca acreditar na perda e jamais se acostumar com a despedida, mesmo essa estando alí todos os dias. É o ápice da batalha, rimos um do outro e nos auto-declamamos "Os Cavaleiros que Dizem Tchau"!
Foi quando eu perguntei a ele como fazia para se despedir de seu grande amor, ele riu, ajeitou o bigode para fora da boca e deu um trago no cigarro sem filtro dando uma idéia de que sua vida se tornava tão amarela quanto seus dedos, como em uma fotografia sépia e velha. Dentre muitas magias que há na vida, uma delas é olhar um ser amado dormindo: a salvo dos olhos e da consciência, por um delicioso instante tem-se nas mãos sua parte mais íntima, indefeso. É a única maneira que eu tenho de me despedir sem lágrimas e de poder saber que alí sempre seremos um do outro...
Faltavam poucos minutos para o trem do Istvan partir foi quando ele me deu uma lembrança da qual será minha única recordação física dele. Uma fotografia sua tirada em algum pais de lingua cirílica e despediu-se dizendo que não saberia se algum dia iriamos nos ver novamente e que muito nunca iria me ver dormindo, então, quando eu acordasse e visse sua fotografia ele provavelmente estaria dormindo em algum lugar e assim eu poderia não mais chorar ao me despedir de alguém.
Dedico essa minhas palavras a Jourrana Maristella que sempre estará comigo.